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Poeta: Priscila de Loureiro Coelho
     
Texto: Fragmento do Cotidiano
     

O dia hoje está bonito!

No céu azul o sol, escancarado,
presenteia a manhã com um ar alegremente
sadio e promissor.

Deixo meu coração pulsar desordenado,
estimulado pelo convite irresistível da natureza,
que a cada instante acena para mim
da janela de meu escritório,
desviando minha atenção de textos
e ideias formatadas.

Quase perversamente,
permito que minha atenção escape
por esta brecha
indo ao encontro dos sentimentos
que a distrai.

Deixo-me vagar por entre ideias e imagens
deste mundo subjetivo que me cerca...

Mundo fascinante, encantador,
desconhecido!
Tão instigante que provoca o desejo ardente
de explorá-lo.

Por uns minutos, horas, dias,
séculos talvez,
nem sei,
saboreio o imponderável,
toco o improvável
e experimento o impensável!

Ah! Fascina-me o poder da criação,
o existir inexorável.

Minha alma deixa-se esparramar
sem resistência
fragmentando-se até sentir-se
parte inseparável
do cosmos...
Flutua entre o real e o imaginário, 
e neste cenário
deixa-se fluir.

A desconstrução dos limites
que me prendem à personalidade
é uma atividade surpreendente.
Permite que cada emoção,
sentimento ou imagem
contida no espaço delimitado
do meu ser,
se dilua,
na imensidão
do infinito.

Impressionante assistir-me navegando por um oceano azul
de proporções impensáveis!
Como se um vão da temporalidade acolhesse minha alma
e a conduzisse pela eternidade.

Aos poucos retorno a atenção para o trabalho,
preciso produzir...
Conservo ainda a lembrança suave
do existir sem limite,
que bem sei me fará companhia
ao longo deste dia.

Capital e trabalho, fome e pão,
desejo e possibilidade,
esperança e vida!
Retorno a esta dimensão
assumindo minhas fronteiras.
Ah! A sensação desconfortável
me impõe
a consciência do tempo
e do espaço.

Experimento então, de modo agudo,
uma terrível solidão que me faz desejar
um longo abraço,
que possa abrigar
meus sentimentos,
que acolha
cada um dos meus receios
e acalme o meu coração.

Olho os textos,
laudas em branco,
apostilas e livros abertos...
Tudo incerto, tudo por finalizar.

Meus dedos correm pelo teclado,
registrando frações de ideias que penso ter compreendido.
Há tanto o que aprender, tanto a se perceber.
Intuitivamente vou mergulhando pelos abismos do vir a ser,
deixando-me guiar pela imaginação,
energia que principia quando nos dedicamos a criar,
brincando de viver.

Neste momento,
o som de telefone me distrai novamente
do trabalho.
Por segundos olho para o aparelho
como se fosse algum alienígena
que tivesse entrado em meu escritório
pela janela,
enquanto estava a perambular
pelo espaço...

Trim... Trim... Trim...

Atendo.

Do outro lado uma voz me informa:

Seu numero de telefone foi sorteado.

Você acaba de ganhar um curso de informática!


Priscila de Loureiro Coelho

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