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Enviada por: Graça

UM VICE CARA DE PAU
Por Chrystiane Silva e José Edward, da revista VEJA
Em 10.12.2005, 14h24

            José Alencar, que se enrolou no caso das camisetas vendidas ao PT, não tem o que reclamar dos juros. Sua empresa tomou 421 milhões de reais do atual governo, a taxas favorecidas.

          Desde que foi empossado no cargo de vice-presidente da República, em janeiro de 2003, o empresário José Alencar dedicou-se com maestria à tarefa de infernizar a vida do próprio governo. Iniciou uma cruzada contra os juros, chegando a propor que políticos tomassem o lugar dos técnicos do Banco Central. Disse que os juros do BC não são uma forma de controlar a inflação, mas um despropósito, um "assalto" contra os trabalhadores e a classe empresarial. Embora primário, o discurso de Alencar seria até comovente, se não fosse contraditório e hipócrita. Dono de uma das maiores empresas têxteis do país, a Coteminas, Alencar tem acesso a linhas de crédito do governo com juros altamente subsidiados, com taxas reais (descontada a inflação) que muitas vezes ficam abaixo dos níveis cobrados até em países de Primeiro Mundo.

          Nos três anos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, enquanto vociferava contra os juros do BC, a Coteminas tomou emprestados 421 milhões de reais do governo utilizando dois tipos de crédito subsidiado. Foram 221 milhões em crédito rural, na modalidade EGF - matéria-prima, cuja taxa é tabelada, por lei, em 8,75% ao ano. Os outros 200 milhões foram liberados pelo BNDES, com taxas entre 12,25% e 14%. A empresa já recebia empréstimos como esses no governo anterior, é importante registrar. Mas o volume aumentou 35% sob o governo petista, nas duas modalidades de créditos. Em 2001 e 2002, a Coteminas recebeu 241 milhões de reais; em 2003 e em 2004, o valor subiu para 324,3 milhões. As taxas cobradas da empresa são realmente muito baratas. Só para efeito de comparação, a Selic, criticada por Alencar, está hoje em 18,5% ao ano. Já as taxas cobradas pelos bancos, das empresas sem vice-presidente da República, ficam acima de 30% ao ano, em média.

          Alencar não viola nenhuma lei ao fazer isso. Há décadas, empréstimos subsidiados têm sido legalmente usados para fomentar a economia e, é claro, agradar a apaniguados e amigos do rei. Mas os juros baratos do empresário Alencar acabam encarecendo o crédito como um todo. Já que não controla o fluxo de empréstimos como os de Alencar, que têm taxas fixas ou alheias a suas decisões, o BC é obrigado a dobrar a dose dos juros quando quer conter a inflação. E o resto do país paga a conta. Para entender como isso ocorre, basta imaginar uma represa cuja vazão ocorre por três comportas. Para evitar o excesso de vazão, é preciso reduzir o fluxo de água igualmente em cada uma delas. Se uma das três comportas não puder ser controlada, será necessário fechar ainda mais as outras duas. A comporta que não pode ser fechada são os empréstimos subsidiados. As outras duas são os empréstimos que o resto do país toma. Portanto, se estivesse mesmo preocupado com os escorchantes juros pagos pelos pequenos empresários e consumidores brasileiros, o vice cara-de-pau poderia lançar uma frente, dentro do governo, para acabar com a mamata dos juros subsidiados que sua empresa e outros grandes grupos nacionais recebem.

          Seria uma irresponsabilidade afirmar que a Coteminas é uma companhia de padrão global só porque recebe empréstimos subsidiados. Mas é inegável que a relação promíscua entre o empresário Alencar e o político Alencar alimenta desconfianças. Na semana passada, o jornal Folha de S.Paulo revelou que a Coteminas recebeu do Partido dos Trabalhadores, em dinheiro vivo, 1 milhão de reais. O montante seria parte do pagamento de uma dívida de 12,2 milhões de reais, contraída nas eleições municipais de 2004 para a confecção de 2,7 milhões de camisetas. Muitas suspeitas rondam essa venda. Inicialmente, o hoje ex-tesoureiro do partido, Delúbio Soares, disse que o pagamento do dinheiro constava da contabilidade oficial do PT. Depois, afirmou que os reais vieram dos empréstimos que o lobista Marcos Valério avalizou para o partido. Mesmo essa versão, na qual Delúbio admite irregularidades, carece de amparo na realidade. Há seis meses, Valério divulgou uma lista dos repasses que ele teria feito em nome do PT. O dinheiro pago à Coteminas não consta dela. "Ou Valério omitiu o nome de José Alencar ou estamos diante de um caixa três do PT", diz o deputado Gustavo Fruet, da CPI dos Correios.

          Também existem dúvidas do lado da Coteminas. O preço das camisetas estava acima do usual de mercado e, embora a dívida nunca tenha sido integralmente paga pelo PT, a Coteminas não entrou na Justiça para cobrá-la. Em suma, Alencar vendeu fiado ao PT, mas com preços acima do mercado, e com o mesmo espírito dadivoso com que Valério emprestou ao partido. É um caso de esquizofrenia empresarial-filantrópica que não consta de manuais capitalistas ou psiquiátricos. O dado curioso, para dizer o mínimo, é que Alencar foi um dos responsáveis pelo ingresso do lobista Marcos Valério Fernandes de Souza no coração do governo Lula, ainda na campanha de 2002.

          Há mais curiosidades. Uma delas é que a primeira carta em que a Coteminas finalmente cobra o resto da dívida do PT foi enviada em 6 de junho passado - no exato dia em que o deputado Roberto Jefferson denunciou pela primeira vez o esquema do mensalão. Um mês antes do encaminhamento dessa carta, a Coteminas recebera o milhão de reais em espécie, supostamente como o primeiro pagamento da dívida. Montinhos de reais colocados em envelopes foram entregues no escritório da empresa em São Paulo e depois depositados na conta da Coteminas no Banco Bradesco da Avenida Paulista.

          A Coteminas é dona de marcas como Artex, Santista, Calfat e Garcia. Em outubro, anunciou uma associação com a Springs, com sede nos Estados Unidos, a maior indústria americana no setor de cama, mesa e banho. A união resultou na formação da maior companhia do setor no mundo, batizada de Springs Global. Terá 25.000 funcionários, 36 fábricas e faturamento de 2,4 bilhões de dólares. O acordo deve começar a valer em 2006, mas ainda depende da aprovação dos órgãos de defesa da concorrência do Brasil e dos Estados Unidos. Por tudo isso, e também pelo fato de ser uma companhia aberta, e portanto dever satisfação aos acionistas, é vital que sua administração esclareça os fatos. Alencar afirma que desconhecia o pagamento de 1 milhão de reais em espécie. "Não tenho nada a ver com isso. Quem entende de valerioduto é o PT", disse. Como suas declarações não convenceram a CPI, ele pediu que o presidente da Coteminas, Josué Christiano Gomes da Silva, seu filho, fosse a Brasília explicar o caso. Josué, em grande parte responsável pela boa administração da empresa, entregou aos integrantes da CPI cópias das notas fiscais. Mas não conseguiu dissipar as suspeitas de que a tal venda de camisetas nunca passou de uma doação ao caixa dois (ou três) do Partido dos Trabalhadores e que o pagamento de 1 milhão de reais foi um acerto de contas paralelo.

          Não é a primeira vez que as camisetas da Coteminas embaraçam Alencar. Em 1998, a empresa vendeu 2 milhões de unidades por 3 milhões de reais ao PSDB. Na mesma operação, doou outras 400.000 blusas à campanha, no valor de 590.000 reais. A transação não consta da prestação de contas que os tucanos entregaram à Justiça. Como o PT, o PSDB também demorou para pagar as camisetas. O Ministério Público acredita que os tucanos usaram fundos de pensão, principalmente a Funcef e a Petros, para quitar a dívida com a Coteminas.

          Valério: Alencar o levou ao PT

          As camisetas que fazem agora Alencar arder na fogueira do mensalão o transformaram em bilionário. Em 1946, o vice, então com 14 anos, tornou-se balconista de uma loja de tecidos em Muriaé, no interior de Minas. Com o apelido de "Zé Kaquim", fez fama como vendedor. Em 1960, Alencar assumiu em Ubá a direção da tecelagem União dos Cometas. Não demorou para tornar-se presidente da Associação Comercial de Ubá, posição na qual apoiou o golpe de 64. Enriqueceu nos anos 70. Conseguiu, nessa ocasião, seu primeiro financiamento da Sudene, para instalar uma fábrica de tecidos no norte de Minas. A Coteminas foi classificada pela Sudene na faixa de prioridade A. Essa categoria obrigava o órgão a investir no negócio três vezes mais do que os seus donos. A Coteminas também contou com isenção de imposto de renda por dez anos e redução de impostos de importação de máquinas. Nas últimas três décadas, Alencar comprou outras dez fábricas, todas na área da Sudene. "Ele sempre teve habilidade ímpar para sugar todos os recursos públicos e incentivos que a lei permite", diz o empresário Stefan Salej, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg).

          Em 2002, Alencar foi cortejado por mais de um candidato a presidente da República. Eles o queriam como companheiro de chapa. Lula venceu a parada depois de uma longa negociação com os dirigentes do PL, ao qual Alencar era filiado. A escolha do empresário rico e com fama de competente foi um fator decisivo para a vitória de Lula, uma vez que ajudou a quebrar as resistências que havia no empresariado com relação a um possível governo do PT. Ah, é claro, Alencar doou oficialmente 2 milhões de reais à campanha de Lula. Uma vez no cargo, o vice trouxe problemas não só por causa da língua solta e da eterna cantilena de críticas à política econômica. Sua atuação à frente do Ministério da Defesa também rendeu dissabores. Nacionalista empedernido, o vice-presidente não tira da cabeça a idéia de salvar a combalida Varig, ainda que, para isso, tenha de arrombar os cofres públicos. Em março deste ano, ele comandou uma atrapalhada ação de lobby em benefício da companhia aérea. Desde 1996, a empresa move um processo contra o governo em que pede 4,6 bilhões de reais por perdas supostamente provocadas por planos econômicos que vigoraram entre 1985 e 1992. No ano passado, o caso chegou à esfera do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Em março deste ano, Alencar, por sua conta e risco, decidiu procurar o presidente do STJ, Edson Vidigal, para defender um acordo extrajudicial por meio do qual o governo desistiria de recorrer contra a Varig no processo. Ou seja: em vez de defender os interesses da União, o vice-presidente fez justamente o contrário: trabalhou para prejudicá-los, em benefício da companhia. Assim é Alencar.
 

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